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Liderança feminina é uma tendência a se espelhar

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Do discurso de Kamala Harris às empresas, a importância de nos acostumarmos a ver mulheres ocupando espaços de poder.


Como mulher, não pude evitar a minha emoção ao ver o discurso de Kamala Harris ao ser eleita Vice-Presidente dos EUA. Além de ser a primeira mulher a ocupar cargo de tamanha relevância na política mundial, ao afirmar que não será a última, ela abriu as portas para que cada garota vislumbre a possibilidade de chegar lá. Seu posicionamento lança luz sobre uma questão sempre atual: lugar de mulher é onde ela quiser. Inclusive nos mais altos postos de liderança e poder.

Em 2001, quando completei 16 anos, eu tive a oportunidade de estudar a língua inglesa em um programa de intercâmbio na Austrália. No meu primeiro dia de aula no colégio público de Forest Hill, na cidade de Sydney, fui informada pela coordenadora que poderia escolher uma matéria extra a grade curricular padrão, algo comum praticado pelas escolas para aumentar a vivência escolar. Lembro que havia muitas possibilidades de aulas, desde mecânica e marcenaria, até temas que atraiam mais as alunas mulheres, como culinária, cerâmica.

Entre uma infinidade de cursos oferecidos, o que mais chamou minha atenção foi o de Marine Studies – estudos marinhos na tradução literal, mas imagino que possa ser comparado à biologia marinha. Achei que o curso tinha tudo a ver com a Austrália e a cidade de Sydney é rodeada de praias paradisíacas de grande riqueza de fauna e flora marítima. Era tudo o que eu precisava para viver uma experiência verdadeiramente australiana e aproveitar a oportunidade incrível de conhecer as belezas naturais daquele país. Um colega ainda comentou que a aula teria vivências práticas, além das teóricas e isso também me empolgou. Apesar de não ser uma grande aventureira, eu me inscrevi.

No primeiro dia da aula, já um pouco atrasada, abri a porta e me deparei com uma classe lotada, uma turma de umas 40 pessoas, composta apenas por alunos homens e um professor, homem também. Ao ver aquela sala de aula eu me senti intimidada e recuei. Fingi ter entrado na sala errada e fui até a secretária da escola pedir pra mudar de curso: “Fotografia, por favor”. Claro que o fato de eu ser estrangeira, “brasileira”, aprendendo uma língua nova e em meio a uma cultura completamente diferente da nossa, também foram fatores que contaram para gerar aquela reação, mas, o que mais me intimidou foi mesmo a completa falta de representatividade feminina naquele ambiente e, consequentemente, uma falta de identificação com aquele espaço. Me senti um completo peixe fora d’água.

Na época, fiquei com uma sensação de frustração, um misto de impotência e falta de coragem. Algo que depois, felizmente, se transformou em uma vontade imensa de estar onde eu quiser. Com certeza a Luiza de hoje entraria naquela classe e sentaria na primeira fila.

Essa passagem curiosa da minha vida, que foi um momento simbólico pra mim, também é uma analogia para falar da importância de se ver representada e encontrar diversidade nos espaços sociais. Afinal, quantas mulheres acabam desencorajadas a persistir em carreiras que ainda hoje são consideradas mais “masculinas”? Nas mesas de negociação e boards de empresas, quantas mulheres estão presentes e participando ativamente das decisões? E quantas de nós conseguem se fazer ouvir sem ter que levantar um pouco o tom voz?

Promover a diversidade nas empresas vai muito além de uma questão numérica. Não basta ter 50% de mulheres no quadro de funcionários, elas precisam estar na liderança, colocando os pontos de vista delas nas estratégias e tomadas de decisão. O objetivo é conquistar um espaço de equidade e equilibrou. Precisamos da diversidade para trazer novas perspectivas e que além de tudo, representem a maior parte da população.

Já não é segredo que a variedade de experiências e áreas de conhecimento favorecem a inovação nas empresas. É um mix que favorece a criatividade e a capacidade de adaptação. Além disso, cada vez mais, habilidades comumente vistas como “femininas” estão se revelando cada vez mais estratégicas no ambiente corporativo. Características como empatia e compaixão, facilidade de comunicação e abertura ao diálogo, autogestão de múltiplos papéis, além da capacidade de mediar conflitos gradativamente se misturam ao que se espera das marcas que lideram o mercado.

São habilidades interpessoais desenvolvidas desde muito cedo pela forma como as mulheres são socializadas, de forma que chegam até mesmo a serem entendidas como “naturais”. Ainda que tudo isso seja parte de um aprendizado sutil e sofisticado, passou a ser valorizado muito recentemente, acompanhando a tendência de investir na qualidade do ambiente de trabalho e da necessidade de equilíbrio entre carreira e bem-estar. Tanto para mulheres, quanto para homens.

O discurso de Kamala aparece em um momento chave, em que houve um aumento de 203% de interesse de nossos compatriotas nas eleições dos EUA, como mostramos neste levantamento. Para além do discurso, enquanto mulher, negra e descendente de indianos, Kamala surge como uma representação de diferentes minorias sociais naquele espaço. E isso tem um grande poder de transformação.

Ver-se representada amplia possibilidades de ser e estar no mundo. Se uma série com uma protagonista feminina pode influenciar mulheres a querer aprender xadrez, como demonstramos neste outro infográfico, imagine do que é capaz uma vice-presidente da mais poderosa nação mundial.